Newsletter nº 343  -  Ano IX  -  10 de Setembro de 2009

 

      

IGUAIS, MAS DIFERENTES

Hoje no caminho de DongGuan para Shenzhen me deparei que após cerca de 18 anos de profundas relações com a China consigo identificar a imensa muralha que cerca o ocidente do oriente, afinal o pragmatismo negocial quase sempre pode ser o melhor caminho para deixar de avançar na relação entre esses dois mundos.

Nossa ignorância é tamanha que por décadas costumamos dizer que os orientais são todos iguais. Quem não conhece o dito que diz que “mesma coisa é um caminhão de chineses”?

São adágios como esses que revelam por vezes o nosso “pré”conceito estético, fundado no não conhecimento, afinal é exatamente essa visão que os orientais têm de nós, de que somos todos iguais, o que equivale a identificar brasileiros e paraguaios como a mesma coisa! (O que por certo seria um bom caminho para uma briga). Logo, fique certo; eles, entre si, são absurdamente diferentes e simplificar pode ser um breviário caminho para a ofensa.

Neste exato momento, eles ocupam o primeiro lugar no consumo e na produção de automóveis, e isso não é para menos. Existe uma febre de aquisição de automóveis, seja ela estimulada por preços que são cerca de 50% dos valores dos carros brasileiros, isso nas marcas mundiais, pois se a pessoa fizer a opção por um legítimo carro chinês, o valor do bólido pode ser de cerca de 30% o de um similar brasileiro.

É evidente que ao tomar o setor automobilístico por referência, pretendo aqui demonstrar que um setor verticalizado como esse exerce um papel significativo em qualquer economia mundial. Tomemos como exemplo, a economia brasileira, para referendar a importância do segmento; basta dizer que nos últimos vinte anos as quatro maiores montadoras instaladas no Brasil figuram entre as quinze maiores empresas privadas, logo manter políticas que estimulem esse setor é alimentar a vitalidade da pujança econômica de qualquer nação.

E talvez seja esse o setor que melhor explica a China de hoje, primeiro pela variedade de fábricas e de marcas, onde neste momento existem cerca de 120, logo é impossível decorar o nome de todas: Geely, JAC, Chery, Foton, Foday, BYD, Dadi e até um atrevido Fudi, são apenas algumas, e é claro todas as 10 maiores montadoras do mundo estão na China, e todas com fábricas por meio de joint ventures com a indústria local, o que sempre foi a política daquele país que visa criar uma indústria local, obrigando as multinacionais a se associarem, se pretenderem produzir ali.

A variedade de marcas traz consigo uma imensidão de modelos, e nesse aspecto a China toma o lugar de NYC, afinal quem costumava ir aos EUA, percebia justamente isso, a frota se modificava a cada ano com novos modelos e é exatamente isso que ocorre nesse momento na com os chineses, uma profusão de novos modelos, com gosto dos mais variados. Quanto a qualidade é evidentemente que na velocidade que essa indústria se desenvolveu existe ainda muito a se aprender, o que não é difícil em um país que não possui folga nos finais de semana.

Essa profusão de modelos, começa a circular pelas ruas em uma velocidade impressionante, a tal ponto que eu desafio qualquer pessoa a andar dois quilômetros dentro das cidades sem ver um automóvel zerinho sem placa. É impactante, sendo de fazer inveja a muitas velhas indústrias do nosso ABC.

Compreender a cultura local, é mais do que um exercício de progressão quantitativa, é antes de mais nada estar aberto para um mundo bem diferente do nosso, imagine por exemplo que no comércio de frango, os pés da galinha tem um preço maior do que o do peito? Esse hábito alimentar é uma outra referência das nossas diferenças, logo ao estender o projeto de ampliação do seu negócio para China, não realize uma equação apenas quantitativa, pois se assim o fizer estará no caminho certo para o fracasso.

A estruturação de um negócio no país do escritor da “Arte da Guerra”, exige paciência e determinação, saber que entre os iguais existe muita diferença e compreender essas diferenças é a rota obrigatória para vencer nesse mercado.

  CHARLES MACHADO
Diretor Executivo da Machado & Associados e Presidente do Instituto Nacional de Direito Empresarial
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“ O texto acima é de exclusiva responsabilidade do colaborador.” 

 

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